Quando, em 1708, os protótipos para esta cômoda chegaram ao Grande Trianon, o duque d’Antin, diretor dos edifícios do rei, escreveu à Luís XIV: “Eu estava no Trianon inspecionando a segunda escrivaninha de Boulle; é tão bonita quanto a outra e combina perfeitamente com o quarto.”
Essa magnífica peça de mobiliário foi feita por André-Charles Boulle para o quarto de dormir de Luís XIV no Palácio de Trianon. Acredita-se que o artista seja o mais notável de todos os marceneiros franceses. Ele trabalhou para o rei e conduziu uma importante oficina no Louvre. Apesar do brilhantismo de sua obra e dos altos preços que as pessoas estavam dispostas a pagar por ela, ele estava constantemente sem dinheiro por causa da sua obsessão por colecionar obras de arte.
Os detalhes desta cômoda são surpreendentes. Os pergaminhos de folhas de acanto tridimensionais na gaveta superior eram o ornamento assinatura de Boulle, que ele colocou em várias de suas peças. Ele se harmoniza com a marchetaria da frente de ambas as gavetas. As figuras femininas de bronze com pés de pata e acanto apoiando o corpo são precisas em acabamento. Boulle alcançou o aspecto de emaranhado de penas para as asas esculpindo-as, mas para parecerem mais autênticas ele poliu algumas áreas, fazendo-as brilhar. Entretanto, esta obra-prima foi criticada por alguns pelo seu “estranho tratamento de formas”, referindo-se às quatro pernas extras em espiral, necessárias para suportar o peso das montagens de bronze e do tampo de mármore. Todavia, as cômodas de Trianon tornaram-se instantaneamente populares e, baseadas em descrições dos catálogos de leilões de Paris do século XVIII, sabemos que a oficina de Boulle fez, pelo menos, outros cinco exemplares deste modelo.
- Ania Jeznach